
RAÍZES, RASTROS: Cerâmicas Memórias
Lembranças
"Em minha infância lembro-me da terra vermelha, daquelas que só de pisar o pé se suja. Sujeira que não sai do jeito fácil.
Ouro Branco, terra saudosa, por seus anos dourados nesta minha infância vermelha.
Saudade da mexerica e da horta da tia lá no fundo de sua casa, do cheirinho da fumaça e dos biscoitos em um fogão a lenha no quartinho atrás da casa, pequenos tesouros que me dizem o que é a verdadeira felicidade.
Lembro-me de sempre brincar na terra, terra das batatas, terra de raízes... Raízes que me recobraram a memória de minhas 'andanças' por este quintal de cores fortes. Minhas lembranças, meus registros, meu passado. Local onde busco as formas de retirar forças, lugar onde sei que sempre as terei, na terra, nesta minha terra.
Mesmo citando outros quintais, sou de Sabará. Terra da jabuticaba, das palmas douradas, do barroco mineiro. Sempre residi nesta cidadezinha, recordando-me ao andar por entre morros e igrejas das coisas marcantes às quais Minas Gerais sempre me remete: a cultura interiorana, hospitaleira, bucólica, e, sobretudo, simplista.
O desenho sempre foi algo presente em minha vida. Desde os dez anos, desenhava em cadernos pautados minhas memórias de pássaros coloridos, de lugares em que havia estado, de insetos, de animais, e principalmente de árvores.
Sempre tive o hábito de caminhar pelo mato, de sentir seus cheiros, de observar paisagens. Desenhava tudo aquilo que minhas jornadas me traziam. Um lugar marcante era sempre retratado.
Minhas memórias sempre buscaram refúgio nas velhas fábricas de tecido do tempo de meus avôs. Decrépitas ruínas de um tempo que se foi, onde a poeira, hoje instalada por todos os lados, recobre os vidros embaçados em paredes marcadas por rachaduras, mantendo quietas as grandes e antigas máquinas de tear."
Raiz – O resgate da memória
Durante meu processo de formação no curso de Artes Plásticas da Escola Guignard - UEMG, nunca pensei em trabalhar com algo que pudesse remeter ao meu passado e nem mesmo sei se faço isso de forma racional, contudo, após uma pequena experimentação me surpreendi ao ver que de alguma forma essas marcas, estes vestígios mnemônicos, apresentavam-se à medida que meu trabalho progredia.
Em minha adolescência mantive ininterruptos hábitos de desenho, iniciando novos gostos por áreas afins, como a pintura, a fotografia e as gravuras.
Num dado momento, decidi então prestar vestibular para Artes. Em 2006, ingressei na Escola Guignard, bacharelando no curso de Artes Plásticas. De lá para cá, acréscimos e perdas se tornaram uma constante em minha vida. A experiência adquirida possibilitou o surgimento de muitos estilos e poéticas que influenciaram meus futuros trabalhos.
Processos
Quando entrei para as aulas de cerâmica sob a orientação da professora Lorena Dar’c de Menezes, na Escola Guignard (UEMG - 2006/2009) minhas sensações táteis ao manusear a argila após tanto tempo, me direcionaram ao encontro de algo realmente diferente. As experimentações e observações plásticas que a argila me proporcionava, deram vazão a algo longínquo e saudoso. Cheiros e sensações eram despertos em memórias involuntárias ao apertar e acrescentar a massa molhada e terrosa da argila.
Devido a essas e outras observações, experimentando com diversas formas e tipos de argila em que a área da cerâmica podia me oferecer, iniciei produção dos trabalhos através do uso das formas aplainadas e sóbrias das placas de barro. No momento inicial me ative apenas à sua composição matérica, mesmo que, de forma involuntária quisesse inserir algo à mais nas pequenas placas de argila creme.
Construí placas pequenas, medindo cerca de 19 x 06 cm de comprimento, sem que ainda eu soubesse o que poderia ser feito com a argila.
Deixei-as descansando por uma semana, envolvidas em plástico e pano molhado. Na semana seguinte fui até a entrada da Escola Guignard.Olhei em todas as direções buscando algo, mas nada me veio à mente. Até olhar para baixo e ver no chão, nos canteiros da Escola, diversos tipos de plantas. Levei uma delas até o ateliê de Cerâmica, e a deixei sobre a mesa e saí. Algum tempo depois, retornei à sala de aula, e encontrei a planta completamente murcha e escurecida. Tentei inseri-la em uma das placas de argila, mas não me contentei com o resultado imediato. Retirei algumas de suas folhas, e tentei novamente inserir a planta na placa de argila, mas obtive a mesma insatisfação. Em seguida, refiz o mesmo percurso desfolhando-a por completo, até que ao final não sobrara nada além de sua raiz. Com ajuda de um rolo de madeira, pressionei a raiz sobre a argila e a observei por um breve período. Logo, repeti o mesmo ato com as demais raízes por sobre as placas restantes. Envolvi as placas em pano umedecido e plástico, e as mantive em descanso até a aula seguinte.
Após uma semana, retornando ao ateliê de cerâmica, desenrolei minhas peças, e me deparei com o imprevisto. As raízes depositadas sobre a argila ainda úmida deram continuidade à sua condição orgânica. Elas cresceram e se alastraram, demarcando e sulcando na argila os rastros de seus percursos.
A raíz novamente restabeleceu seu corpo, mas, a localidade por onde ela inicialmente havia sido inserida, não era mais a mesma, pois a raiz havia disseminado se alastrado, trazendo junto ao novo desenho sobre a argila, não somente um desenho frotado e expandido, como também, registros de minha infância.
Raiz – O resgate da memória
Mesmo se propagando sem minha interferência direta, o que normalmente ocorre quando trabalhamos com orgânicos, as raízes buscavam e se mantinham em sua própria linha motriz. Minhas vontades e interseções ocorriam quando eu diretamente as manipulava, conduzindo-a para a localidade propícia ao seu crescimento. Dando vazão para que este processo pudesse ocorrer.
Quando invariavelmente retirava o plástico ou o pano molhado - para fazer com que a argila entrasse em ponto de couro (estado em que a peça crua que perdeu muita água, já não obedece bem a pressão dos dedos, bom ponto para raspagens, entre outras) , para em seqüência secar e ser levada à forno - , observava que, devido a perda de água, a raiz , já enfraquecida e desidratada, entrava em um estado de torpor, que precedia sua morte, ou sua seqüente cremação.
O fogo transmutava a raiz em registro, eternizando sua presença no vazio de seus passos. O espaço, o vestígio donde a presença outrora se firmava, deixava lugar ao memorável. A lacuna agora preenchida pela lembrança, mantinha fixa as linhas desenhadas, enrijecidas pelo batismo do fogo.
O fogo registra a linha, e materializa a expansão da memória – do desenho. Interno e externo se demarcam, aludindo através dos acasos de um crescimento os limites e espaços fragmentados da memória.
A Linha inscreve o desenho, resgate de um traço da infância, do ‘grafos’ onde o risco presente no muro das velhas fábricas é a rachadura, a ruptura, o fragmentado. Assim como o desenho feito sobre a cerâmica, onde o muro é a placa e a linha a raiz.
A frotagem como um registro destas rachaduras, é a impressão em matéria da memória sobre os tijolos do muro decrépito. Onde o gestual se pronuncia pela ação do tempo sobre o suporte, e o fogo sede ao mesmo sua permanência.
A raiz me remete à metáfora da busca, do resgate, da reminiscência da errância. Em seu leito obscuro (o sulco na placa de cerâmica), ela percorre com seus longos dedos o subterrâneo a procura de um caminho, de uma significação, de uma existência, de algo vital.
Imersa na escuridão, neste jogo tátil, a raiz avança por caminhos inexplorados. Cada tentativa de se chegar a algum lugar carrega em si a marca desta passagem. Os rastros produzidos imprimem no chão a imagem de uma existência. Onde os locais passados são o recobrar da ação efetuada. O desenhar da memória.
Neste movimento de expansão da raiz, ramificando-se em diversas direções, ela se defronta com o acaso, com o imprevisto. Assim como a memória, ela estabelece um diálogo entre o presente e ausente, resgatando-se através dos rastros de seu próprio caminhar.
Para saber mais sobre os processos e demais detalhes sobre os trabalhos em raízes, acesse:
http://www.wix.com/fredmoreira/raizes
Fotografias (Frotagens Digitais):
http://www.wix.com/fredmoreira/fotografias
Desenhos de Figura Humana: